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19.12 DÚVIDAS COMUNS QUANTO À EXISTÊNCIA OU NÃO DE RISCO ERGONÔMICO
1ª. Parte
A definição da existência ou não do risco ergonômico passa por algumas questões sutis, que necessitam ser esclarecidas. Ao longo do trabalho de consultoria e de orientação sobre o assunto, têm sido feitas algumas questões importantes e pertinentes, que passo a compartilhar com os leitores de Proteção.
Quando há realmente o risco ergonômico?
Ninguém tem dúvidas em situações óbvias. Por exemplo, não há qualquer dúvida quanto à existência de risco entre trabalhadores envolvidos em carregamento de sacas de mantimentos ou de cimento de 50 a 60 kg, mesmo que ocasional. Também não há dúvidas quando as pessoas têm que fazer esforços críticos, de alta exigência, especialmente relacionados a esforços para a coluna vertebral. Ou entre mecânicos envolvidos em atividades de alta exigência sem as ferramentas para tal. E também entre aqueles que trabalham por tempo prolongado em ambientes muito quentes.
As dúvidas aparecem em trabalhos de manufatura, onde as pessoas se envolvem com movimentos repetidos muitas vezes durante a jornada; e também no trabalho comum em escritórios ou atividades de tele-atendimento, onde ocorre uma tendência à generalização do risco.
A repetição de um mesmo padrão de movimento se constitui em risco ergonômico?
Não necessariamente. Os estudos científicos são bem conclusivos quanto ao papel patogênico da repetição de um mesmo padrão de movimento, em alta velocidade e por jornadas prolongadas. Essa tríade eu a denomino de repetitividade patogênica. Ela pode ficar bem caracterizada para o leitor ao abordarmos a repetição não patogênica.
Não é patogênica a repetição em que o trabalhador tem os tempos corretos de recuperação de fadiga, estudados por técnicas científicas. Tampouco é patogênica a repetição em velocidade normal a baixa; ou quando há rodízios adequados. Em empresas, é muito comum que, mesmo sem haver rodízio entre tarefas, o trabalhador tenha um período longo de uma atividade complementar de exigência diferente. Por exemplo, numa situação em que, embora não haja rodízio na tarefa, ao final de um certo número de peças produzidas, o trabalhador sai daquela posição e dirige-se a uma outra máquina onde faz uma operação complementar naquele conjunto de peças previamente trabalhadas. Outra situação de repetitividade não patogênica é quanto a tarefa tem, em si, tempos de pausa curtíssima suficientemente longos para permitir o repouso. Ou quando existe uma concessão significativa em termos de tempo para preparar a produção ou para finalizá-la. A chance de uma repetição de movimentos ser caracterizada como patogênica é também menor quando há boa postura do corpo ao executar o trabalho, quando existe pouca força, quando há pouco esforço estático e quando a carga mental é razoável.
Ao contrário, é nitidamente patogênica a repetitividade em que o trabalhador tem ritmo muito forçado, quando não faz rodízio dos movimentos e mantém o mesmo padrão durante toda a jornada, quando faz horas extras nessa atividade e quando há ainda fatores biomecânicos complicadores, como força excessiva, desvios posturais, postura estática e alta carga mental na atividade. E quando não tem as necessárias pausas de recuperação.
De que forma a organização do trabalho contribui para a existência ou não existência do risco ergonômico?
Definimos organização do trabalho como o conjunto de planos administrativos visando atingir as metas estabelecidas. Ela se constitui num somatório de 9 letras, mnemonicamente fáceis de serem guardadas: 1T e 8 M (tecnologia, maquinário, manutenção, matéria prima, material, método, meio ambiente, mão-de-obra e money). Qualquer disfunção importante em algum desses componentes pode resultar em risco ergonômico. Por exemplo, guidões de paleteiras elétricas sem manutenção podem resultar em grande esforço físico para os braços do trabalhador e, conseqüentemente, lesão ergonômica. Outro exemplo, aumentar as metas sem considerar a capacidade das equipes costuma resultar em aceleração dos processos produtivos, horas extras e, portanto, aparecimento de risco ergonômico onde previamente não existia. Sutil? Muito!
Conclusão
Uma das características mais marcantes do risco ergonômico é a sua oscilação dependente da realidade de momento de uma determinada empresa. Assim, é possível que, em determinado momento não haja um risco ergonômico e em outro momento, poucos dias após, já exista o risco. Ou o contrário. Também depende do tipo de produto, de haver produções mais fáceis ou mais difíceis; de haver uma coleção verão ou inverno na indústria de confecções; e assim por diante.
Estar atento a todos esses detalhes é função do especialista interno em ergonomia, pois isso tem a ver diretamente com o reconhecimento ou não do risco por ocasião de um afastamento médico.
De qualquer forma, uma boa orientação para o leitor é saber que os fatores que mais determinam o risco ergonômico são: a intensidade de um determinado fator, a freqüência do exercício dessa ação técnica ao longo da jornada e a taxa de ocupação.
E um dos melhores meios de detectar o impacto desses fatores é a prática da ferramenta intitulada censo de ergonomia, que se constitui basicamente em perguntar a todos os trabalhadores por ocasião da revisão periódica: você considera que no seu trabalho há algum fator que lhe cause desconforto, dificuldade ou fadiga? A análise estatística das respostas pode orientar muito para a caracterização ou não do risco ergonômico.
Na 2ª. Parte deste texto (em fevereiro de 2009)
O trabalho em escritório é de risco ergonômico?
A carga mental se constitui em risco ergonômico?
Pode-se afirmar o risco ergonômico por atividade produtiva (por exemplo call-center)?
Posso fazer a definição do risco com base em checklist?
Tenho que colocar no ASO a existência do risco ergonômico?
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