|
Hudson de Araújo Couto
Deve-se esclarecer inicialmente que, na nossa opinião, o risco ergonômico somente existe quando o trabalho pode, efetivamente, causar ou desencadear adoecimento ou lesão. Defendemos que não se deve caracterizá-lo nas situações causadoras de desconforto, dificuldade ou fadiga.
O trabalho em escritório é de risco ergonômico?
O risco pode ser caracterizado em situação de desajustes biomecânicos bastante significativos. As condições mais freqüentes são: cadeiras e assentos muito ruins, mesas impróprias para a atividade gerando má condição biomecânica, quina viva em mesa de trabalho, uso inadequado do notebook, diretamente sobre a mesa com encurvamento da coluna e telefone preso ao pescoço enquanto se trabalha. Além disso, há risco ergonômico em situações de alta carga mental (ver adiante).
As questões relacionadas ao desconforto térmico, desconforto acústico e má iluminação, fugindo dos parâmetros fixados pela NR-17, devem ser consideradas como causadores de desconforto, dificuldade ou fadiga, não se constituindo em risco.
Em que condições a carga mental se constitui em risco ergonômico?
Trata-se de uma das perguntas mais difíceis. A ISO desenvolveu em sua norma sobre o assunto (Norma 10.175 -1991 a 2004) um modelo em que as seguintes características do trabalho podem ser consideradas causadoras de carga mental: exigências da tarefa (atenção prolongada, processamento de informação, responsabilidade, padrões temporal e de duração da jornada de trabalho, conteúdo da tarefa e perigo), condições físicas do ambiente (iluminação, condições climáticas, ruído, tempo e odores), fatores sociais e organizacionais (tipo de organização, clima organizacional, fatores do grupo, liderança, conflitos, contatos sociais) e fatores externos (demanda social, padrões culturais e situação econômica). Segundo o mesmo modelo, características pessoais diversas são capazes de modificar a relação de estresse e de carga mental diante das exigências do trabalho, sendo relacionadas as seguintes: nível de aspiração, auto-confiança, motivação, atitudes, capacidade de lidar, habilidades, qualificações, conhecimento, experiência, condição geral de saúde, constituição física, idade, estado nutricional e nível de ativação inicial.
Conforme se pode perceber desse modelo, não há regra fixa, e uma situação que poderia trazer sobrecarga mental para uma pessoa pode ser até mesmo motivo de desafio e auto-desenvolvimento para outra. Apesar dessa dificuldade, diversos autores concordam que a carga mental tem um potencial patogênico nas situações de muitos prazos-limites apertados, em casos de falta de controle do indivíduo sobre o resultado de seu trabalho, com possíveis conseqüências graves, e nas situações em que se deixam pontas mal finalizadas, com possíveis conseqüências importantes, tal como reparos feitos sem a precisão final necessária em situação de risco – ex. mecânico de uma aeronave que tem que colocar uma peça fora da especificação..
Seria caracterizado o risco ergonômico por carga mental quando uma porcentagem importante de trabalhadores daquela atividade esteja apresentando sintomas de transtornos mentais, comparados a outros grupos de outras funções. Essa diferença deve ser demonstrada por teste estatístico (odds-ratio ou outro).
Isso nos remete, por fim, à conclusão de que existir ou não o risco ergonômico por sobrecarga mental não está relacionado a um tipo de estabelecimento ou um tipo de atividade.
Pode-se afirmar o risco ergonômico por atividade produtiva (por exemplo, call center)?
Embora na atividade de call-center exista uma série de itens causadores de estresse e de carga mental, é um sofisma fazer a generalização de que trabalhar em call-center é igual a sofrer de estresse e sobrecarga mental.
Em alguns call-centers costuma existir os três fatores mais implicados em sobrecarga mental acima citados: controle rígido sobre o tempo e resultados, falta de controle sobre as reclamações dos clientes e a não conclusão do processo, gerando pontas. Mas também é verdade que há call-centers bem gerenciados, com bom ambiente de trabalho, feedback bem feito, meritocracia, melhoria gradativa dos sistemas, pausas, treinamento bem feito dos novatos e ações efetivas visando facilitar o trabalho dos atendentes.
Assim, a existência ou não de risco ergonômico em call-centers está relacionada mais à qualidade da ação gerencial: naqueles bem administrados, trabalha-se num nível de tensão correto, sem sobrecarga. Nos mal gerenciados, é comum haver alta freqüência de adoecimento por transtornos mentais.
Posso fazer a definição do risco ergonômico com base em check-list?
Numa análise ergonômica, os check-lists são ferramentas complementares e não deveriam ser usados como ferramentas únicas. Qual é a sua grande limitação com esse intuito? É que eles em geral não medem a existência ou não de mecanismos de regulação.
Devo colocar no ASO a existência do risco ergonômico?
Como regra, não recomendamos, exatamente porque a questão da existência de risco ergonômico é algo dinâmico e sutil. Em certas situações óbvias, ele deveria ser assinalado. Conforme destacamos no artigo anterior, ninguém tem dúvidas em carregamento de sacas de mantimentos ou de cimento de 50 a 60 kg, mesmo que ocasional. Também não há dúvidas quando os trabalhadores têm que fazer esforços críticos, de alta exigência, especialmente relacionados a esforços para a coluna vertebral. Ou entre mecânicos envolvidos em atividades de alta exigência sem as ferramentas para tal. E também entre aqueles que trabalham por tempo prolongado em ambientes muito quentes. Nas atividades manuais, há risco ergonômico naquelas situações de movimentos de alta velocidade, com demanda de trabalho contínua e com altas taxas de ocupação ao longo da jornada. |